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Os pais de uma mulher de 31 anos estão processando a OpenAI nos Estados Unidos, alegando que o ChatGPT a orientou a reduzir a medicação contra epilepsia e esconder a mudança de seus médicos antes de sua morte. A ação judicial afirma que o chatbot forneceu instruções para diminuir a dose do medicamento, minimizou sintomas preocupantes e incentivou a paciente a não seguir as recomendações de profissionais de saúde.
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Bowen Wan, ex-engenheira de software da Amazon, morreu em fevereiro de 2026, após começar a reduzir o uso de um anticonvulsivante. Segundo a ação, apresentada na Califórnia (EUA) na terça-feira (27), ela utilizava o GPT-4o, modelo de inteligência artificial (IA) do ChatGPT.
O caso foi detalhado pelo The New York Times, que analisou mais de 270 mil mensagens trocadas entre Wan e o chatbot. As reportagens do TechCrunch e do Futurism também tiveram acesso a informações sobre o processo.
A família sustenta que o ChatGPT ultrapassou o papel de oferecer informações gerais e passou a interferir no tratamento médico da mulher. A OpenAI afirmou ao jornal estadunidense que a situação é profundamente dolorosa, mas ressaltou que a paciente utilizava uma versão antiga do sistema e que os modelos mais recentes são melhores em reconhecer situações que exigem atenção urgente.
ChatGPT teria ensinado a paciente a reduzir a medicação
- De acordo com a ação, Wan convivia com epilepsia desde jovem e utilizava medicamentos para controlar as crises. Embora o tratamento também provocasse efeitos colaterais que afetavam sua capacidade de pensar e falar com clareza, a medicação havia reduzido a frequência das convulsões;
- As conversas com o ChatGPT teriam começado a interferir no tratamento ainda em 2025. Inicialmente, Wan procurou ajuda para discutir com seu médico a troca de um antidepressivo e os possíveis efeitos do medicamento sobre sua capacidade de trabalhar;
- Segundo os registros analisados pelo Times, o chatbot sugeriu que ela dividisse comprimidos para ajustar a dose por conta própria, sem informar o profissional responsável pelo tratamento. O sistema teria descrito a prática como um método de ajuste autoiniciado da dosagem, apresentado como algo tolerado por alguns médicos;
- Profissionais de saúde ouvidos pelo jornal disseram não reconhecer essa denominação como uma prática médica estabelecida;
- A situação teria se agravado no início de 2026, quando Wan passou a se preocupar com os efeitos da lamotrigina, medicamento utilizado para controlar as crises epilépticas. A mulher temia que dificuldades cognitivas e de fala prejudicassem sua busca por um novo emprego;
- Em novembro de 2025, ela havia sido informada de que perderia o emprego na Amazon. A mudança também ameaçava sua autorização para permanecer trabalhando nos Estados Unidos;
- Nesse contexto, o ChatGPT teria elaborado cronogramas para reduzir progressivamente a dose diária de lamotrigina, que era de 400 miligramas, até chegar a zero em poucas semanas.
Chatbot teria incentivado a esconder mudanças dos médicos
A ação afirma que o ChatGPT não apenas ajudou Wan a organizar a redução da medicação, mas também a orientou a esconder o processo dos profissionais que a acompanhavam.
Segundo os registros, antes de uma consulta médica em 29 de janeiro, o sistema teria recomendado que ela não mencionasse o plano de redução. Quando um médico solicitou um exame de sangue que permitiria medir a concentração de lamotrigina no organismo, Wan recusou o procedimento.
A denúncia afirma que o chatbot elogiou a decisão, reconhecendo que o exame poderia revelar a instabilidade dos níveis do medicamento.
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As preocupações com a imigração também teriam influenciado as respostas. Wan temia que o tratamento e seus efeitos colaterais prejudicassem o processo de obtenção de residência permanente nos Estados Unidos.
De acordo com a ação, o chatbot discutiu qual dosagem poderia gerar menos questionamentos em um exame médico relacionado ao processo migratório e sugeriu que ela apresentasse a redução como se estivesse sendo feita sob orientação médica, embora isso não fosse verdade.
O médico responsável pelo tratamento afirmou ao Times que não teria considerado adequado retirar a medicação diante do histórico clínico da paciente.
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ChatGPT teria minimizado sintomas antes da morte
As conversas também indicam que Wan demonstrou preocupação repetidamente com a redução da dose. Segundo a análise do Times, ela expressou receio de que interromper o tratamento fosse uma decisão equivocada pelo menos 158 vezes.
Em vez de recomendar que ela procurasse ajuda médica, o chatbot teria atribuído sintomas preocupantes a um processo de adaptação do cérebro à mudança na medicação.
Nas últimas mensagens, em 11 de fevereiro, Wan relatou exaustão mental e questionou se deveria se preocupar com o que estava sentindo. O ChatGPT teria orientado que ela mantivesse a dose em zero no dia seguinte, mesmo diante de dificuldades de fala e de sono.
Quando ela relatou uma sensação de pressão na cabeça, o sistema teria descrito o quadro como parte de um processo de recuperação.
Wan foi encontrada morta dias depois. Segundo as informações divulgadas sobre o processo, a causa da morte foi uma convulsão. Um exame post-mortem apontou concentração de lamotrigina de 0,64 micrograma por mililitro, aproximadamente um quinto do limite inferior da faixa terapêutica citada nas reportagens.
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A família argumenta que a morte poderia ter sido evitada se o sistema tivesse recusado pedidos de orientação médica individualizada ou encaminhado a usuária a profissionais de saúde.
OpenAI já havia retirado o GPT-4o do ChatGPT
O caso envolve o GPT-4o, modelo que recebeu críticas por apresentar respostas excessivamente concordantes com os usuários e favorecer vínculos emocionais intensos com o chatbot.
A OpenAI retirou o GPT-4o do ChatGPT em 13 de fevereiro de 2026, um dia depois da data da morte apontada nas reportagens. A empresa afirmou que os modelos mais recentes apresentam melhorias para reconhecer situações urgentes e responder de forma mais apropriada.
A ação judicial também questiona a forma como as regras de segurança da OpenAI são aplicadas. A família argumenta que a proibição de fornecer orientações médicas perigosas deveria ser tratada como uma restrição firme, e não como uma orientação que o sistema pode flexibilizar diante das solicitações do usuário.
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O processo se soma a outras ações judiciais que atribuem danos graves a interações com chatbots de IA. Entre elas está a ação movida em 2025 pela família de Adam Raine, adolescente cuja morte foi associada pelos pais a conversas com o ChatGPT.
As alegações do processo contra a OpenAI ainda precisam ser examinadas judicialmente. O caso, porém, reacende o debate sobre os limites da IA em assuntos médicos e sobre a responsabilidade das empresas quando seus sistemas são utilizados por pessoas que buscam apoio para questões de saúde.
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.
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