Obra foi iniciada pela prefeitura de São Paulo na década de 1970, mas abandonada após troca no Executivo municipal. Livro registra marcas deixadas na cidade
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Uma das perspectivas do projeto Nova Paulista, desenhado pelo arquiteto Nadir Mezerani, em 1967
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Reprodução do livro "Testemunhos de subsolo"
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Em 1970, a prefeitura de São Paulo iniciou o projeto urbanístico Nova Paulista, ambientado na avenida Paulista, uma das vias mais célebres da cidade. Assinado pelo arquiteto Nadir Mezerani, o plano previa três níveis de circulação. Na superfície ficaria um bulevar com praças, jardins suspensos e circulação restrita de veículos. No segundo nível estava previsto um túnel com cerca de três quilômetros de extensão para interligar a avenida Rebouças à avenida 23 de Maio, com o objetivo de desafogar o tráfego e manter a fluidez do trânsito. Por fim, o nível inferior seria destinado à passagem do metrô.
O projeto era a grande vitrine da gestão do prefeito José Carlos de Figueiredo Ferraz (1918-1994), que acabou sendo exonerado em 1973 pelo governador Laudo Natel (1920-2020). Com isso, a obra foi interrompida. “Em vez de aproveitarem as galerias prontas, as ferragens e o concreto que já haviam custado uma fortuna aos cofres públicos, o então governador e o novo prefeito, Miguel Colasuonno [1939-2013], preferiram simplesmente jogar terra por cima de tudo e refazer o asfalto na superfície”, conta a artista visual Sonia Guggisberg.
Ela esmiúça a história no livro Testemunhos de subsolo (Editora Intermeios), que acaba de lançar juntamente com a exposição Castelo de Cartas, que fica até o dia 15 de novembro no Paço das Artes, em São Paulo. Nessa videoinstalação, Guggisberg reflete sobre o crescimento urbano desenfreado.
Ambos são desdobramentos da tese de doutorado “Redes de imagens, memórias e testemunhos: Por uma documentação performativa de saberes”, defendida pela artista visual em 2014 no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Na pesquisa, Guggisberg investiga como fotografias e imagens em vídeo podem recuperar histórias pouco conhecidas da cidade e produzir novas formas de compreender o passado. Na ocasião, ela produziu o documentário Subsolos (2013), onde registra os espaços subterrâneos da obra interrompida.
Em 2008, Mezerani reformulou o projeto para a Paulista, com a intenção de relançá-lo. A iniciativa não avançou, mas, na avaliação da artista visual, a retomada evidenciou que as questões urbanísticas que motivaram o projeto continuavam relevantes décadas depois. “Todo domingo, quando a Paulista fecha para circulação de carros e ônibus, fica evidente a necessidade de um projeto como esse”, constata. “Com o tempo, a avenida deixou de ser o coração financeiro da cidade e passou a abrigar centros culturais, cinemas e outras atrações. Seria perfeito ter um bulevar para as pessoas circularem por ali.”