Quais os riscos nas transformações de cooperativas

Algumas cooperativas mudaram tanto que já não estão alinhadas aos valores que definem o modelo

Ao pensarmos em cooperativas, imediatamente criamos uma representação mental. Surge uma espécie de invólucro conceitual que projeta organizações humanistas que priorizam as pessoas antes dos aspectos econômicos.

Essa representação não está errada, pois cooperativas surgiram para trazer igualdade para os desiguais. Diretrizes da Aliança Cooperativa Internacional destacam valores que contemplam, entre outros, a gestão democrática, a ajuda mútua, a equidade, a solidariedade, a transparência e o cuidado com o próximo – todos voltados à contraposição da lógica capitalista.

Porém, cooperativas mudaram no decorrer da história, tornando-se diferentes entre si e, em alguns casos, desviando do enunciado e dos valores que as definem. A academia tem começado a se debruçar sobre essa questão, pois, ao mesmo tempo que é preciso incentivar o cooperativismo para fazer frente aos desafios globais, é preciso resguardar que esse incentivo seja destinado a organizações que sejam alternativas autênticas a um modelo econômico cada vez mais exaurido.

No recente Congresso Brasileiro de Estudos Organizacionais, discutimos como cooperativas são diversas, com algumas se apresentando muito distantes daquilo que apregoa a proposta original do modelo.

A primeira diferença se dá no aspecto democrático. Apesar de a gestão democrática ser a base constituinte das cooperativas, pesquisas têm demonstrado que, quando crescem, algumas dessas organizações fatalmente centralizam o poder decisório em poucas pessoas. Democratizar não requer transformar toda decisão estratégica numa assembleia permanente, perdendo em velocidade ou tecnicidade. Mas o envolvimento dos cooperados jamais pode ser visto como uma ingerência. Sob o ponto de vista cooperativo, decidir sem a anuência dos cooperados é o que efetivamente deve ser considerado como não profissional.

Negar diferenças entre cooperativas pode levar à perda da essência do modelo

Nessa organicidade democrática, as cooperativas divergem muito entre si. Há cooperativas em que o aspecto democrático se restringe a ritos formais obrigatórios, desvinculados do dia a dia e conduzidos com foco em tolher divergências. Enquanto isso, há cooperativas que tentam não somente manter, mas ampliar a participação, englobando aspectos como a diversidade e a contribuição de minorias nas suas decisões, respeitando garantias fundamentais dos cooperados e evitando aquilo que podemos chamar de “tirania da democracia”.

As situações também variam de acordo com o tamanho da cooperativa – talvez a diferença mais perceptível. A abrangência objetiva de uma cooperativa pode variar de centenas de milhares de cooperados distribuídos em dezenas de estados ou regiões até pequenas cooperativas de pouco mais de duas dezenas de cooperados, com atuação local e impacto circular. Elas enfrentam realidades diferentes.

Já no aspecto da reprodutibilidade social, existem no Brasil cooperativas que efetivamente transformam a forma como os cooperados desenvolvem suas atividades, tornando-os mais independentes e empoderados. Antagonicamente, porém, há aquelas que aplicam a seus cooperados processos e diretrizes praticamente iguais aos de qualquer empresa capitalista, tornando-os ainda menos independentes, uma vez que ficam vinculados a critérios institucionais, além dos comerciais.

Há ainda o aspecto da influência da cooperativa. Enquanto, em alguns casos, cooperativas são apenas instrumentos para o protagonismo do cooperado, em outros, elas impactam sua vida em aspectos que vão além do limite estabelecido originalmente na relação cooperado-cooperativa. Essa afluência institucional difere tanto que, em cidades pequenas, chega a estabelecer condições que tanto conduzem quanto limitam as ações de cooperados e outras partes interessadas. 

Ainda, entre as diferenças, a presença em maior ou menor grau de diretrizes gerencialistas nos processos de governança mostra o quanto aspectos sociais são colocados em pé de igualdade aos econômicos na hora das decisões. Sem eficiência econômica, a cooperativa não sobrevive. Sem democracia ampla e sem espaço para valores humanistas fundamentais, ela pode até sobreviver no curto prazo, mas deixa de ser aquilo que justifica sua existência.

Quando uma organização mantém o nome, a forma jurídica e o discurso cooperativo, mas modifica profundamente seus valores e sua relação com os cooperados, nem sempre estamos diante de uma experiência realmente cooperativa. É o caso, por exemplo, de cooperativas que excluem do quadro social pequenos cooperados (que por muito tempo as sustentaram) sob o pretexto de não serem mais operacionalmente viáveis.

Esses extremos de posicionamento culminam no principal aspecto de diferenciação: o critério moral, que estabelece o quanto as premissas de funcionamento estão alinhadas aos conceitos humanistas dos precursores que fundaram o modelo. O cooperativismo não surgiu do acaso – foram várias as experiências antes dos primeiros experimentos exitosos (no plural). Todas elas foram inspiradas na contraposição ao modelo econômico exploratório de uma época, com foco no bem comum.

Esse posicionamento por vezes parece abandonado. Cooperativas de garimpeiros notificadas por órgãos ambientais, pelas mazelas que causam ao enriquecer pequenos grupos, certamente não estão preocupadas com o bem comum e não podem ser consideradas cooperativas. Cooperativas que estabelecem parcerias de dependência com grupos capitalistas, fomentando a queda de outras cooperativas, não podem falar em intercooperação. Cooperativas envolvidas direta ou indiretamente em casos de trabalho análogo à escravidão, desvios de recursos públicos ou tráfico de influência precisam urgentemente revisar seus fundamentos.

A verdade é que há cooperativas que já não mantêm as premissas que historicamente as diferenciavam de outras organizações. Nem todas atuam com os mesmos fundamentos. Corre-se o risco de apoiar uma concorrência desleal, permitindo benefícios e vantagens especiais a organizações que têm muito pouco de diferente.

A sociedade precisa reconhecer essas diferenças – responsabilidade que se inicia pelas lideranças e por pesquisadores que transitam na área. Não se pode mais aceitar que relatórios ou projetos de pesquisa utilizem definições totalizantes para caracterizar cooperativas. Muito menos aceitar ideologias que intencional e permanentemente disseminam a ideia de que cooperativas têm todas um perfil único e, somente por carregarem essa definição, são naturalmente melhores do que outras empresas. Para isso, no mínimo precisam ser e agir como verdadeiras cooperativas.

Negar diferenças entre cooperativas tem feito ressurgir fantasmas e mágoas de décadas passadas que fomentam preconceito ao sistema e distorções que trazem riscos para os próprios cooperados. Além disso, há o risco maior de todos: a perda da essência.

Alexandre Marcelo Schneider é professor no CEP/Univates (Centro de Educação Profissional da Universidade do Vale do Taquari). Pesquisa o tema cooperativismo junto ao Programa de Pós-Graduação em Administração da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Fonte: Camara Legislativa

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