A natureza precisa estar adaptada às mudanças climáticas

Conservar a rica biodiversidade brasileira exige salvaguardar os territórios que oferecem abrigo à fauna e à flora e mantêm serviços essenciais à vida

Os impactos que a mudança do clima impõe às pessoas, às cidades e à economia são evidentes e indiscutíveis. E seus efeitos também atingem a natureza. Chuvas extremas, secas prolongadas, ondas de calor e incêndios comprometem habitats e as condições de sobrevivência das espécies. Conservar a rica biodiversidade brasileira exige, portanto, salvaguardar os territórios que oferecem abrigo à fauna e à flora e mantêm serviços essenciais à vida.

As unidades de conservação são fundamentais nesse esforço. O Brasil reúne mais de 3.500 delas, segundo o Cadastro Nacional de Unidades de Conservação, com dados atualizados até julho de 2026. Esses territórios protegem espécies nativas, endêmicas e ameaçadas de extinção, mantêm os estoques de carbono e sustentam serviços como a regulação do clima e a proteção dos recursos hídricos. Também resguardam valores culturais e sociais associados à natureza.

A COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica, que ocorreu de 19 a 30 de outubro, em Yerevan, na Armênia, ofereceu oportunidades para alavancar a agenda de adaptação climática de áreas naturais protegidas. Conhecida como COP da Biodiversidade, a conferência discutiu a primeira revisão global dos avanços na implementação do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal.

O documento estabelece a meta de conservar e gerir efetivamente, até 2030, pelo menos 30% das áreas terrestres e de águas continentais e 30% das áreas marinhas e costeiras, por meio de sistemas representativos, conectados e com governança equitativa. O marco também prevê a redução dos impactos da mudança do clima sobre a biodiversidade e o fortalecimento de sua resiliência. Cumprir esses compromissos exige ampliar a proteção e garantir que os territórios conservados tenham condições de enfrentar as pressões climáticas.

A importância da proteção continuada é respaldada pela ciência. Um estudo publicado em 2025 na revista Conservation Biology analisou a distribuição de 483 espécies de mamíferos terrestres entre 1970 e 2015. Nas áreas protegidas continuamente desde os anos 1970, as taxas de extinção local — o desaparecimento de uma espécie de determinado território — foram metade das observadas em áreas semelhantes que nunca receberam proteção. O resultado reforça o valor da conservação ao longo do tempo. Sustentar esse papel num clima em transformação exige incorporar novos riscos às decisões de gestão.

Preparar as unidades de conservação é investir na sobrevivência das espécies e na manutenção dos benefícios que a natureza proporciona à sociedade

O projeto “Adaptando unidades de conservação”, da Fundação Grupo Boticário em parceria com o Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais da UFPR (Universidade Federal do Paraná), ajuda a traduzir esse desafio em planejamento e em ações voltadas a reduzir o impacto dos eventos climáticos extremos sobre a biodiversidade. Na Reserva Natural Serra do Tombador, em Cavalcante (GO) – onde o maior desafio está relacionado a incêndios –, e na Reserva Natural Salto Morato, em Guaraqueçaba (PR) – cujo desafio principal está associado aos impactos de chuvas extremas –, o trabalho combina análise climática, mapeamento e diagnóstico de riscos e proposição de medidas de adaptação.

As projeções regionais do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) utilizadas no projeto indicam que, entre 2041 e 2060, a temperatura média anual da região climática onde a reserva Serra do Tombador está inserida, por exemplo, pode ficar entre 2,7°C e 3,7°C acima do período pré-industrial, dependendo do cenário de emissões. Para o mesmo período, são projetados cerca de 29 a 30 dias adicionais com temperaturas acima de 35°C entre setembro e novembro, além de períodos secos mais longos. Essas condições pressionam a disponibilidade de água e favorecem a propagação de incêndios, ampliando os desafios para a biodiversidade.

A partir do mapeamento e da classificação dos riscos, o “Adaptando unidades de conservação” propõe medidas conforme as prioridades identificadas. Entre elas, estão a recuperação de áreas erodidas com técnicas de engenharia natural e restauração ecológica com espécies de árvores nativas, a melhoria da drenagem de estradas e trilhas e ações de prevenção a incêndios. As recomendações mostram como o conhecimento sobre cada unidade de conservação pode orientar ações preventivas e mitigar o impacto sobre a biodiversidade.

O projeto também contribui para produzir orientações aplicáveis a outras unidades de conservação. Elaborada em parceria com dez instituições, dentre elas o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), a versão preliminar do roteiro metodológico para a elaboração de planos de adaptação à mudança do clima foi uma das contribuições levadas à COP17 da Biodiversidade. O documento orienta gestores a identificar ameaças, avaliar vulnerabilidades e priorizar medidas, integrando a adaptação aos instrumentos de planejamento existentes.

O roteiro prevê ainda a definição de responsabilidades, recursos e monitoramento contínuo, permitindo ajustar as ações conforme surgem novas informações. Também valoriza a participação das comunidades do entorno e os conhecimentos locais e tradicionais. A prevenção de incêndios, a proteção da água e a manutenção da conectividade entre habitats dependem de cooperação além dos limites das unidades.

Os compromissos debatidos na COP17 precisam se traduzir em ações nos territórios. Temos evidências da importância das áreas protegidas, diagnósticos dos riscos que enfrentam e caminhos para orientar sua adaptação. Cabe assegurar financiamento contínuo, capacitar equipes e transformar o planejamento em ações acompanhadas ao longo do tempo. Preparar as unidades de conservação é investir na sobrevivência das espécies e na manutenção dos benefícios que a natureza proporciona à sociedade.

André Ferretti é gerente sênior de economia da biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza.

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