O ‘Nexo’ publica um trecho de ‘Você não está sozinha’, de Cristina Fibe. O livro reúne textos da coluna sobre agressões contra mulheres e crianças que a jornalista assinou entre 2023 e 2026
Quando estavam definidas quais colunas fariam parte deste livro e ele já passava pelo processo de edição, uma menina de treze anos foi morta por um grupo de adolescentes, com transmissão ao vivo pela plataforma Discord, rede social que permite a troca de mensagens de texto, voz e vídeo, individuais ou em grupo, sem nenhuma ferramenta de controle real de conteúdo ou idade.
A princípio tratado como um suicídio, o caso, ocorrido em julho de 2026 no Mato Grosso do Sul, passou a ser investigado como homicídio pela Polícia Civil. Mais do que isso: para os investigadores, a adolescente foi vítima de um processo de “escravização virtual” promovido por uma organização criminosa que atua na internet.
O esquema é perverso e pode alcançar qualquer criança ou adolescente. De acordo com reportagem assinada por Gabi Cenciarelli no G1, os criminosos caçam suas vítimas em perfis públicos nas redes sociais. Usando identidades falsas, conquistam a confiança de crianças e adolescentes e as levam para plataformas como Discord e Telegram. Com informações pessoais das vítimas nas mãos, passam a ameaçá-las, submetê-las a violência psicológica, persegui-las e obrigá-las a cumprir ordens e desafios extremos, com automutilação e indução ao suicídio. É a essa prática que a Polícia Civil dá o nome de “escravização virtual”.
As “presas” viram reféns dos grupos criminosos, formados por adolescentes e jovens adultos. A Operação Lívia, deflagrada após o assassinato da menina do Mato Grosso do Sul, revelou que ela não seria a única vítima — ao menos outras duas adolescentes estavam na mira de tentativas de feminicídio. E, sim, chamo o crime por esse nome, apesar de a polícia não concordar, porque os elementos misóginos da morte da menina são inescapáveis. No início de agosto, a operação apontava como principais suspeitos pelo crime cinco adolescentes, de treze a dezessete anos, e um jovem adulto, de dezoito, espalhados por vários estados do país. O líder seria um garoto de catorze anos, apreendido no Rio de Janeiro.
O caso da menina disparou uma guerra entre o Governo Federal e o Discord, com a primeira-dama, Janja Lula da Silva, defendendo o bloqueio dessa plataforma no Brasil. A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) abriu uma fiscalização e determinou a suspensão das transmissões ao vivo pela ferramenta. A decisão foi a primeira medida preventiva aplicada sob o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital, que entrou em vigor em março de 2026. Até o momento em que colocamos um ponto-final nesta obra, o governo federal negocia um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para encerrar as investigações e evitar novas punições.
Mas aquele assassinato, numa madrugada qualquer, dentro de casa, não é exceção — apenas proibir transmissões ao vivo ou a plataforma não resolverá o problema. Conforme reportagem de Ana Cristina Campos, publicada em junho de 2023 na Agência Brasil, o Discord já havia sido alvo de outras operações policiais, como a Dark Room, que tentou desmantelar um grupo acusado de praticar crimes como estupro virtual, exploração sexual infantil, indução à automutilação e apologia a racismo, nazismo e misoginia.
Embora seja o centro da discussão no momento, o Discord não está sozinho. A jornalista Bárbara Sá, em reportagem da Folha de S. Paulo em julho de 2026, mostrou que outras ferramentas são parte do sistema: de jogos on-line, como Roblox, Minecraft e Free Fire — nos quais os criminosos operam recrutando vítimas — a aplicativos de mensagens, como Telegram e Signal, que permitem a comunicação criptografada entre lideranças das organizações criminosas com operações semelhantes às de facções como o PCC. No texto, a repórter explica que, para intimidar as vítimas, os grupos recorrem ao doxxing, ato de pesquisar e publicar, sem consentimento, informações privadas. Quando os alvos entendem que os criminosos sabem onde estudam ou moram, o efeito é imediato e devastador, afirmam especialistas.
Explicar os mecanismos de coação capazes de levar uma menina à morte é uma forma de antecipar respostas a questionamentos que ainda são feitos: Mas por que ela abriu a câmera? Por que obedeceu? Por que machucou a si própria? Por que não denunciou? Por que ela morreu?
Este capítulo, que encerra o livro, reúne casos que pavimentam o caminho para entender como fomos parar em tamanho buraco. A normalização da violência; a educação que, em vez de proteger, forma mentes misóginas; a tolerância ao estupro e ao feminicídio no esporte mais popular do país; o lucrativo poder da machosfera; um futuro sendo construído por meninos criados para odiar mulheres.
Para não terminar em desesperança, o que posso dizer a quem chegou até aqui é que a consciência das violências relatadas nestas páginas é um pequeno passo para mitigá-las. Você, que não compactua com um sistema que oprime e mata crianças e mulheres, é parte da mudança. Nós somos a mudança.
Essa revolução só se dará assim: por meio da educação, do letramento, do fim da normalização desses crimes e da responsabilização de quem os comete. Enfrentamos agora uma onda de contra-ataques cujo objetivo é nos fazer caminhar para trás e conter a transformação. Mas, felizmente, ela já começou.
Você não está sozinha
Cristina Fibe
Bazar do Tempo
304 páginas