‘Os humanos cruzam fronteiras para ter mudanças internas’

Min Jin Lee conversou com o ‘Nexo’ sobre a diáspora sul-coreana e o processo de escrita de seu novo livro, ‘Hagwon americana’. Ela é autora de ‘Pachinko’, considerado um dos 100 melhores livros do século 21

<media:content url=” type=”image/webp” medium=”image”>
<media:title>
A autora sul-coreana Min Jin Lee
</media:title>
<media:credit>
Divulgação/Hae Ran / Channel Yes
</media:credit>
</media:content>

Os romances escritos pela autora sul-coreana Min Jin Lee têm uma temática em comum: a diáspora e a imigração. “Ser imigrante significa, em essência, deixar sua casa e ir para outro lugar. Será que as pessoas realmente querem você lá? Elas ficam felizes com sua presença? Você está preparado para lidar com todas as diferenças entre o lugar de origem e o novo destino?”, disse a escritora ao Nexo.

O livro “Hagwon americana”, lançado no Brasil em outubro pela editora Intrínseca, retrata a pressão que os jovens sofrem para ter uma boa performance educacional e, assim, ascender socialmente. A trama apresenta a ruína dos Koh, devastados após uma falsa acusação de assédio do patriarca John. As gerações da família se dividem pela Ásia, pela Oceania e pelas Américas para tentar retomar seu status social. 

“Hagwon americana” é o terceiro exemplar da tetralogia de Lee sobre a diáspora sul-coreana. O livro mais famoso do conjunto é “Pachinko” (2017), que retrata a vida de três gerações de uma família da Coreia do Sul no Japão. Em 2024, o jornal americano The New York Times considerou a obra o 15º melhor lançamento do século 21.

Apesar de ter apenas protagonistas nascidos na Coreia do Sul, Lee acredita que as angústias em torno da imigração são universais. “Mesmo focando num determinado tipo de pessoa, acredito que seja perfeitamente possível que brasileiros se identifiquem com esses personagens, da mesma forma que eu poderia ler um romance russo, francês, britânico ou brasileiro e me identificar”, disse a autora. 

O Nexo conversou com Lee na quarta-feira (4). Na entrevista, a autora falou sobre o processo de escrita de “Hagwon Americana”, os motivos que a levaram a trabalhar com a diáspora e o momento atual da literatura sul-coreana. 

‘Hagwon Americana’ é seu terceiro romance sobre a diáspora coreana. Quais foram as principais motivações para o novo livro? 

Min Jin Lee Queria escrever um romance sobre os motivos que levaram a educação a ser tão importante para os coreanos ao redor do mundo, não apenas na Coreia do Sul. Quando eles saem do país, sua preocupação com a educação segue intensa. 

Quando comecei a fazer a pesquisa [para escrever o livro], descobri que não se tratava só de educação. As pessoas se preocupavam com uma espécie de segurança econômica e viam a educação como um meio de alcançar mobilidade social e estabilidade, o que é válido. Mas, com isso, o foco no aprendizado desapareceu. 

Quis investigar o que isso significava, escrevendo um livro sobre sabedoria, sobre o que constitui uma vida sábia. Quando você passa por situações difíceis, como lidar com elas? E uma das perguntas que eu mais queria fazer é: por que coisas terríveis acontecem a pessoas boas? Como as pessoas continuam sendo decentes e boas, mesmo quando as coisas são injustas?

A sra. diria que as experiências de imigrantes têm algum denominador comum, independentemente da origem e do destino? É possível identificar algo que conecte todos os imigrantes do mundo?

Min Jin Lee Sim, acho que há muitos aspectos em comum no fato de ser imigrante. Ser imigrante significa, em essência, deixar sua casa e ir para outro lugar. Será que as pessoas realmente querem você lá? Elas ficam felizes com sua presença? Além disso, você está preparado para lidar com todas as diferenças entre o lugar de origem e o novo destino? 

A diáspora nunca é uma transição fácil. Mesmo que você tenha dinheiro, poder ou domine o idioma, é difícil, porque você pode simplesmente sentir saudades de casa. Pode haver uma dificuldade emocional. 

Nos meus estudos sobre a diáspora, percebi que não se trata apenas de imigração. Às vezes, você é obrigado a mudar. Às vezes, você precisa mudar se quiser aprender algo diferente e, para isso, precisa ir para outro país ou outra cidade. Tenho muito interesse na ideia de que os corpos humanos estão cruzando fronteiras, e estamos mudando a nós mesmos e outras pessoas.

Suas histórias mostram a imigração coreana em Nova York, no Japão do século 20, e, depois, no nível global. Por que a sra. decidiu expandir o escopo ao longo de sua obra, numa progressão cidade-país-mundo? E quais foram os desafios dessa ampliação?

Min Jin Lee Quis aprofundar esse assunto porque, quanto mais aprendo, mais percebo que há muitos pontos em comum entre as pessoas que se deslocam.

Embora eu me concentre nos coreanos, estou, na verdade, mais focada na ideia de deslocamento, que é a diáspora. Mesmo focando num determinado tipo de pessoa, acredito que seja perfeitamente possível que brasileiros se identifiquem com esses personagens, da mesma forma que eu poderia ler um romance russo, francês, britânico ou brasileiro e me identificar com eles. 

Nós, seres humanos, temos muito em comum. Ainda assim, temos diferenças incríveis. Por isso, estudo a formação e as mudanças da cultura. 

[Sobre a tetralogia da diáspora sul-coreana] O quarto livro que estou escrevendo se chama “Plano Marshall”. Ele trata de três grupos diferentes de sul-coreanos: os que foram à Alemanha Ocidental para trabalhar como mineiros e enfermeiros; os que foram para outras partes da Europa a fim de se tornarem artistas, intérpretes e criadores; e as mulheres que se casaram com soldados americanos e passaram a viver nos Estados Unidos. 

O livro trata da ideia de retribuir à Coreia do Sul para reconstruí-la. Quero entender a relação das remessas — por exemplo, quando você envia dinheiro de volta para o país de onde veio — e como isso gera a reconstrução local. 

Como sua experiência pessoal aparece no retrato dos hagwons em seu novo livro? E como a obra retrata o lugar da educação para a sociedade coreana?

Min Jin Lee “Hagwons” é uma palavra coreana para um centro de ensino onde se aprende uma habilidade, desde assuntos acadêmicos até dança ou canto. Também é possível fazer exames para se tornar funcionário público nesses locais.

É muito comum na Coreia do Sul frequentar um Hagwon, tanto para adultos quanto para estudantes e crianças. Nos Estados Unidos, não é tão comum que adultos frequentem centros de ensino continuamente, desde os 4 ou 5 anos de idade, e continuem assim até a universidade. 

Eu queria entender o porquê de [a dedicação à educação] ser tão intensa. Claro que é muito bom querer aprender continuamente. Mas, é claro, nem todo mundo gosta de estudar. Nem todo mundo quer ficar sentado o tempo todo lendo livros e fazendo provas. E acho que uma cultura que não permite essa variedade de estilos de aprendizagem enfrenta muitas dificuldades.

Além disso, mesmo que esse seja um ponto central na sociedade coreana, não tenho certeza de que as pessoas estão satisfeitas com o papel da educação. Quando você conversa com um sul-coreano comum, há muita insatisfação em termos do que eles se lembram da educação e do que veem atualmente.

Muitos pais sul-coreanos querem que seus filhos estudem no exterior porque consideram a competição muito difícil, quase impossível e extremamente injusta. Por isso, quase a totalidade dos filhos de famílias ricas estuda no exterior. 

No entanto, justamente por causa dessa intensidade, a Coreia do Sul conseguiu alcançar conquistas incríveis nos últimos 60 anos. Há o sofrimento, mas também as recompensas.

Sua obra costuma ter protagonistas femininas. Por que a sra. faz essa escolha? Qual a importância de trazer essas personagens para o centro das obras?

Min Jin Lee A Coreia do Sul é um país muito patriarcal, desde antes de [a Coreia] se dividir em Norte e Sul. Isso significa que as mulheres têm significativamente menos direitos do que os homens. Embora hoje haja igualdade de direitos na teoria, o patriarcado ainda existe.

Em meus romances, procuro entender: quando as mulheres têm menos poder formal e menos educação formal, como elas ainda conseguem ser fortes?

Minhas personagens representam a realidade das experiências vividas pelas mulheres coreanas: mesmo que você não seja advogada, médica ou presidente de um país, ainda assim tem poder dentro da sua família.

Tanto “Free Food for Millionaires” como “Pachinko” levaram mais de uma década para serem finalizados. Como foi o processo de produção de “Hagwon Americana”? O que leva a sra. a se debruçar sobre uma obra por tanto tempo?

Min Jin Lee Sou muito teimosa [risos]. E acho que é preciso ser teimoso para escrever livros grandes. Além disso, tenho muito interesse nessa questão da diáspora sul-coreana. 

Quanto mais velha fico, mais também quero entender o que é sabedoria. Como se vive uma vida sábia? Vale muito a pena explorar isso por meio da ficção.

Quanto ao meu processo de pesquisa e de escrita, entrevisto muitas pessoas, faço muita pesquisa acadêmica e trabalho de campo. Visito os locais e tento estar na presença de pessoas que se parecem com meus personagens. 

Ao fazer tudo isso, começo a entender que mundo quero construir no meu romance. E, assim que descubro isso, me sento à mesa e começo a escrever. Depois, reescrevo, reescrevo e reescrevo, até criar algo que esteja coeso. 

Além disso, quero estar completamente ausente [do texto]. Não quero que os leitores pensem em mim. Quero que pensem em si mesmos dentro do livro. Esse é um presente muito poderoso que o leitor me dá quando se permite ler com o coração aberto.

Como a sra. vê o atual momento da literatura coreana? É possível dizer que há uma internacionalização das obras, em linha com a ampliação do alcance de músicas, filmes e séries?

Min Jin Lee Espero que sim! Quando pensamos no quanto sabemos sobre a França, a Inglaterra ou a Alemanha, é porque esses países compartilharam sua cultura e seu soft power conosco. Se pensarmos no alcance de Hollywood e em como ela se espalhou pelo mundo, às vezes acho que é porque [o que produzem] é muito bom, às vezes acho que é porque simplesmente nos acostumamos com isso. 

Quanto mais compreendermos uns aos outros, mais o mundo pode se tornar um lugar mais íntimo. Em vez de pensarmos em “eles contra nós”, podemos pensar em todos nós juntos.

O soft power é intencional na Coreia do Sul. Por isso, o governo sul-coreano apoia a divulgação de música, televisão, séries e literatura. Todas essas áreas estão recebendo apoio. E, claro, os sul-coreanos estão se esforçando muito para garantir que isso chegue ao mundo. Acho que isso é positivo. 

Dito isso, gostaria que soubéssemos mais sobre o Brasil. Quero saber mais sobre Honduras, El Salvador, Espanha ou Portugal. Deveríamos saber mais sobre os países. E acho que o mundo seria significativamente melhor se soubéssemos mais [de diferentes culturas].

Mundo

Veja também